Oi pessoal!
Inicio agora o que será, muito provavelmente, um novo
hábito de nosso blog: artigos que tenham como o tema a literatura. Pretendo
levantar vários temas, desde coisas banais, como a fórmula dos romances
contemporâneos, à coisas mais sérias, como é o caso no momento.
Primeiro de tudo, sei que o tema “liberdade de
expressão” está batido atualmente, graças ao ataque ao jornal satírico francês
Charlie Hebdo (viveu em outro planeta graças às férias? Dê uma conferida aqui).
Mas antes de um ataque terrorista, o tema já era polêmico e abertamente
discutido em meio jurídico — o meu meio. Ano passado fiz uma optativa de Temas
do Direito de Personalidade, onde apresentei um seminário sobre crimes de ódio
e os limites do direito à liberdade de expressão.
Por que resolvi trazer isso para um blog de
literatura, onde habitualmente publicamos resenhas?
Ora, porque liberdade de expressão também encontra-se
na literatura, assim como a semente do que pode se tornar um crime de ódio. Não
consegue visualizar? Vou dar um exemplo simples.
Li, na época do lançamento, o livro “Juliette Society”,
da ex atriz pornô Sasha Grey. Esperava um romance hot e sedutor, mas me deparei
com uma discussão aprofundada de cinema, com dezenas de referências à quinta
arte que não entendi. Além disso, teve
uma passagem que muito me incomodou: onde a autora coloca sua personagem
justificando o sexo e orgasmos através de uma versículo bíblico, dizendo que
Deus defendia os orgasmos. Ao meu ver, foi completamente fora de contexto; como
se eu pegasse uma única frase de um livro inteiro e atribuísse um sentido a
ela, sem me importar com o todo de onde foi tirada.
A pergunta é: eu fiz algo a respeito? Ou melhor: eu deveria
ter feito algo à respeito? Me senti ofendida como cristã, isso é fato. Mas
outras pessoas, fossem religiosas ou não, sequer se importaram. Mas se eu fosse
uma fanática religiosa e fizesse um atentado à vida da Sasha Grey, isso justificaria
meus atos? Dizer que ela “cutucou a onça com vara curta”, ao falar de religião,
justificaria que eu a atacasse?
Estou falando isso porque foram comentários desse
nível que vi em matérias informando sobre o atentando ao Charlie Hebdo:
justificativas para o ataque. E o engraçado é pessoas que comentam isso ainda
dizerem que defendem a liberdade de expressão...
Sinto muito, mas se você acha correto que alguém “pagou”
pelo que escreveu com sua vida, em uma velha interpretação da lei do código
babilônico (“olho por olho, dente por dente”), você tem sérios problemas de
tolerância.
Vivemos em um mundo democrático, onde a liberdade de
expressão deve ser defendida à todo custo. Acha que os franceses que foram às
ruas prestar luto concordavam com as publicações da revista? Errado. Já foi
demonstrado que a revista estava quase falindo, por falta de vendas, e
tinham, inclusive, diminuído a impressão da tiragem pela metade.
O que esses franceses, e o que o mundo inteiro quer
defender, é a liberdade de expressão de dizer o que se quer. A revista Charlie
Hebdo podia publicar o que for, mas se você não se interessa, não é obrigado a
comprar. Conforme o exemplo que citei, detestei “Juliette Society” por uma
lista de motivos, mas nem por isso saí criticando pelo mundo — ou mesmo
atacando a autora — por discordar ou me sentir ofendida com ela.
Repito: vivemos em um mundo democrático. Se o seu
direito de liberdade de expressão esbarra no meu direito, digamos,
moral, eu posso seguir o caminho legal e processá-lo judicialmente por isso.
Quer um fato? Se os islâmicos tivessem deixado o Charlie Hebdo em paz, ele
muito provavelmente faliria em poucos meses, pelo andar da economia deles.
Agora, a França e o mundo inteiro estão dispostos a ajudá-los a continuar
existindo, justamente por que querem defender a liberdade de expressão.
Tolher a liberdade, cortá-la previamente por medo de
quem possa ofender, não é e nem nunca será o caminho de uma democracia. Esse,
caros leitores, é o caminho tomado por ditaduras, onde se proíbe discutir e
mencionar determinados assuntos, com receio de que possa incentivar o povo a
lutar contra o governo. Na Europa da Idade Média, a Igreja Católica queimou
centenas de livros por conterem ideias que se opunham à doutrina religiosa
deles. Na ditadura brasileira tivemos vários casos do tipo, envolvendo não só
autores de livros, como dezenas de artistas.
Como já falei, basta seguir o caminho legal; aqui
mesmo, atualmente no Brasil, temos uma série de governantes processando
jornalistas por conta de matérias que os “ofenderam”. Mas aí é que está: esses
jornalistas não devem ser proibidos de escrever.
Não, não estou defendendo a impunidade. Pelo
contrário: se você exagerou em exercer seu direito, você vai ser
responsabilizado pelo seu exagero, mas judicialmente, através de um processo.
Vai afetar onde mais te dói: em seu bolso. E ainda corre o risco de afetar sua
liberdade de ir e vir, pois pode responder criminalmente e ser preso.
Pensem nisso quando lerem um livro do qual discordam com o autor. Antes de crucificá-lo por ele ter escrito algo que você, como leitor, não gostou, lembre-se que ele tem a liberdade de expressão para tanto, e que assim deve permanecer.
Vou ficando por aqui. Por último, mas não menos importante:
#jesuischarlie !!!
Izandra.
